~> Meninos Não Choram

A cada minuto que se passava, todas as suas expectativas e esperanças eram destruídas, uma a uma. Ele não tinha mais voz pra discutir, toda a paixão e o desejo que estavam em seu corpo, toda a alegria, iam se transformando em ódio, misturados ao clássico sentimento de revolta.

Aquele garoto alegre, espontâneo, agora estava acuado em um canto da sala de aula, enquanto a professora junto com o resto da classe desvendava os mistérios da genética.
Ele queria chorar, queria sair gritando aos quatro cantos como se sentia decepcionado com tudo aquilo, queria abandonar o barco e esquecer aquela louca paixão que o dominava, mas meninos não choram, sentimentos de verdade não mudam e uma paixão de verdade não esfria, mesmo com o balde de água fria que haviam o jogado...

Amor é paz, é tranqüilidade, é carinho, é afeto, é saber que tem algo para se apoiar nos momentos difíceis, algo pra vida inteira. Paixão é viver intensamente, é delírio, inconsciência, é decepção, é sofrimento, é algo que se tem hoje sem saber se terá amanha novamente, mas como o amor, é um sentimento lindo que mesmo que quiséssemos, seríamos humanamente incapazes de esquecer.

A decepção foi enorme, mas a paixão é gigantesca...

Entre todos aqueles olhares que o fuzilavam, querendo saber o que havia com ele, surgia um olhar como resposta, que claramente falava: "Não se preocupem, eu vou ficar bem..."

"Um grande amor não se acaba assim

Feito espumas ao vento
Não é coisa de momento
Raiva passageira
Mania que dá e passa
Feito brincadeira
O amor deixa marcas que não dá para apagar[...]"

~> A Poeira na Cortina

Deitou-se no chão e freneticamente começou a fazer exercícios abdominais, em sua mente a figura ideal do que queria ser: a figura de todas aquelas pessoas que passavam de um lado para o outro e lhe olhavam com certo grau de inferioridade, aquelas pessoas que tinham seus corpos assediados por onde quer que passem. Na medida em que pensava em todos aqueles olhares, todas aquelas pessoas e todos aqueles objetivos, aumentava a velocidade. Seu corpo estremecia, pedindo para que parasse. Seus olhos, cegos, só se permitiam enxergar as aparências, sua aparência... Seus lábios, secos, ansiavam por água. E mesmo assim continuava compulsivamente seus exercícios, até que sua visão ficou turva e desmaiou...

Ao acordar, com um pouco de dor de cabeça, olhou para o teto, a lâmpada estava acessa, vagarosamente olhou para todos os lados de seu quarto, percebeu como a luz lhe permitia enxergar tudo com mais clareza, detalhe por detalhe... Com suas costas recostadas em uma das paredes de seu quarto, pressionando suavemente as mãos sobre sua cabeça, reparou em sua cortina algo estranho, além da poeira que a encobria, percebeu que em seu lado que confrontava com a janela havia alguns desenhos, um “bandó” e outros pequenos detalhes. Durante todos esses anos não havia percebido, mas sua cortina estava ao contrário, e todos sempre a achavam normal do jeito que era...

Ficou ali, durante horas pensando sobre sua vida, seu amigos e amigas, seus objetivos e suas vontades que quase nunca conseguia realizar. Ficou pensando sobre a cortina durante horas na medida em que lhe fazia inúmeras perguntas: Como eu quero que todos me achem normal se eu mesmo sendo, não me considero normal? Como eu quero que me achem uma pessoa bonita se eu não consigo me ver assim? Como eu quero que me assediem se eu ao menos me permito isso? Como eu quero que me amem se nem eu consigo me amar? As perguntas foram muitas, mas a conclusão era apenas uma: o mundo nos vê, como nós nos permitimos ser vistos, ou como nós mesmos nos vemos. Portanto, para que mudem conosco, basta que nós mesmos mudemos.

Com uma forte dor de cabeça, tentou extintivamente levantar-se do chão frio e deitar-se em sua cama, mas não conseguiria mais se levantar novamente...

~> Trancafiando sentimentos

E tudo aquilo que estava engasgado em sua garganta continuou ali, trancafiado, junto de todos aqueles sentimentos e vontades que nem ao espelho ele confiava em dizer. Tudo ali, trancafiado em sua mente, em seu mundo, tudo aquilo que o impedia de dar um passo à frente no mundo real.

E mais uma manha, mais uma tarde, mais uma noite e nada... E nunca... E absolutamente nada nem ninguém muda...

Todas aquelas pessoas, todos aqueles dias, todos aqueles momentos. Só pra ele que isso importava? Todos os carinhos, abraços, palavras de afeto, amor... Vazias?

Tudo aquilo, naquele momento, parecia não passar de uma brincadeira, "pura zoação". Tratava-se de uma bela e doce mentira, algo que pelo jeito só existia e existiu um dia em sua cabeça sonhadora...

Lá estava ele, mais uma vez com uma sensação de que o que era doce amargou, e o que amarga nunca volta a ser doce novamente.

...tudo era apenas um jogo de sentimentos, um jogo frio e cruel que ele não estava disposto a jogar e havia saído derrotado por isso...

"Chegou a hora de esquecer o passado

E passar uma borracha no que aconteceu antes
Se esconda atrás de um rosto vazio
Não faça muitas perguntas, apenas diga
Porque tudo isso é só um jogo
É uma bela mentira

É uma perfeita enganação
Apenas uma bela mentira para se acreditar[...]"

E ele que se achava um mentiroso...



{{A Beatiful Lie - 30 Seconds To Mars}}

~> Vida Nova

Não quero mais pensar em possibilidades, refletir se posso ou não fazer alguma coisa... Agora eu quero viver intensamente, quero acordar, abrir a janela e dizer que o dia está lindo lá fora, quero não só sonhar, mas sim, QUERO FAZER ACONTECER, porque EU POSSO e sei que sou capaz de conquistar TUDO QUE EU QUERO.

A princípio pode parecer que aquele garoto mimado que reinou absoluto durante muitos anos tenha voltado ao controle, mas não é isso: Acontece que aquele garoto cabisbaixo, tímido, pessimista e as vezes, de certa forma até inocente morreu, ou pelo menos foi ofuscado por esse nosso "belo" mundo.

Não vale apena desperdiçar dias e noites chorando por não ter isso ou aquilo, ou até mesmo por não conseguir fazer algo que tanto sonhou. O que importa é olhar pra frente, avistar um novo objetivo, e rumar ao seu encontro. Eu sei que é fácil falar, mas também sei que é difícil continuar na lástima da derrota, sem ao menos ter sido derrotado.


Eu quero errar hoje e amanha, para que, quem sabe, eu seja alguém melhor depois de amanha. Afinal, não é com nossos erros que chegamos mais perto da perfeição e aprendemos a não errar mais?

Barreiras foram feitas para serem derrubadas, sonhos foram feitos para serem realizados. E a vida? A vida foi nos dada para que vivamos intensamente...


"[...]Nas escolas, nas ruas, campos, construções

Somos todos soldados, armados ou não
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais, braços dados ou não
Os amores na mente, as flores no chão
A certeza na frente, a história na mão
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Aprendendo e ensinando uma nova lição
Vem, vamos embora, que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer[...]"

Porque sim, a vida continua mediante a qualquer circunstância...

~> A Tarde Negra

Uma tarde de fantasias e pensamentos controversos: era o que aquele garoto estava vivendo...

Sozinho em sua casa, acompanhado apenas por um livro, ele sentia mais do que nunca que lhe faltava algo. Sua última noite havia sido uma das mais confusas de sua vida, e como em toda confusão, ele não sabia quais seriam as proporções que aquilo lhe causaria. Ele parecia um bêbado de ressaca, se perguntando se havia feito algo de errado na noite passada...

Ele não sabia exatamente se tinha feito a coisa certa, mas se sentia melhor desde o momento em que fez aquilo.

Desde criança ele sempre foi assim, decidido a ter o que quisesse, na hora em que escolhesse, mas diferentemente das outras crianças que pediam abertamente, ele sempre usava alguma de suas ideologias mentirosas, mesmo dizendo a verdade, para conseguir o que desejava. Ele sempre foi um apaixonante manipulador de pessoas, acostumado a manipular até mesmo os garotos mais velhos que normalmente batiam e extorquiam dinheiro das criançinhas de sua idade.

Na noite passada porém, ele havia aberto mão dessas suas ideologias e usado deliberadamente a verdade e era isso o que lhe causava dúvidas. Mas era uma dúvida gostosa de ter, ele olhava tudo com otimismo após dizer a verdade, até mesmo as coisas ao seu redor fluíam de uma forma estranhamente bem. Ele viajava nas milhares de soluções que essa nova visão lhe proporcionava. Ele tinha dentro dele a certeza de que tudo iria ficar bem e que todos os problemas seriam solucionados...

Parecia mentira, mas ao olhar pela janela percebeu que aquela tarde escurecia de uma forma estarrecedora, parecia que a escuridão da noite chegava mais rápido para que em uma conversa ele percebesse que nem sempre se tem uma segunda chance para se solucionar um problema e que definitivamente estava tudo acabado.

E mais uma vez "a ciência confirmava os fatos que o coração já havia descoberto: Tudo era relativo quando fazê-la feliz, lhe fazia feliz".

E bola pra frente, a vida sempre continua, entre tropeços e quedas, momentos bons e ruins: a vida sempre continua. E, diga-se de passagem, continua mais do que se pode imaginar...

"Seus dentes e seus sorrisos
Mastigam meu corpo e juízo
Devoram os meus sentidos
Eu já não me importo comigo
E então são mãos e braços
Beijos e
abraços
Pele, barriga e seus laços
São armadilhas e eu não sei o que faço
Aqui de palhaço, seguindo os seus passos
"

A saudade fica os momentos bons também, mas a tristeza um dia vai ter que partir...

~> O Menino Ogro

O Sol lá fora estava insuportável, mas lá dentro, mesmo ao "clima europeu" do ar condicionado as coisas não estavam assim tão melhores. Todos estavam sentados volta a mesa, em confraternização, tudo estava correndo bem, tudo, exceto os pensamentos na cabeça daquele menino alienado.

Olhava de um lado para o outro desesperadamente a procura de uma saída, o ambiente o sufocava, ele percebia até mesmo pelo movimento dos talheres que ele não pertencia ao grupo e ele já estava saindo dele, de uma maneira torta e de certa forma grosseira, ele sabia, mas ele estava saindo, só não sabia se deveria chorar ou se sentir aliviado por isso...

Em meio as diferenças ele já havia tentado ridiculamente se espelhar naquelas pessoas, mas as diferenças eram sempre maiores do que as suas tentativas. Diferenças sociais, raciais, financeiras? Não! Era uma questão de ideologia, e isso sim liquidava todas as possibilidades de acordo.

Ele se sentia um perfeito ogro disfarçado de príncipe encantado, com seus atos de insanidade, sua ignorância, seu isolamento, e principalmente por sua falta de capacidade e competência...

Insano por dizer coisas completamente sem lógica, ignorante por não conseguir manipular a situação ao seu redor, isolado por não apresentar condições de convívio com outros seres humanos, e incapacitado ou incompetente por desistir de tudo daquela maneira.

Mas apesar de tudo, ele havia aprendido muitas coisas com aquelas pessoas, principalmente, que o mundo real é bem mais complicado do que aquele mundinho ao qual ele pertencia. Não que aquelas pessoas fossem melhores, mas ele percebeu que se ele quisesse vencer na vida ele teria que mudar muito.

Tudo estava terminando ali, entre sorrisos forçados que brochavam o amarelo de seus dentes ao não entender a piada...

Pobre ogro, em lágrimas, volta novamente para o pântano, sem a princesa, mas com a certeza de que aquele é o seu lugar e que nem sempre os contos de fada se tornam realidade...

~> Pela última vez

Após lhe enviar a última mensagem, relembrar o último beijo, o ultimo momento juntos, debulhado em um sentimento controverso, se arrependeu.. mesmo sabendo que era o certo, que era a única saída, e sabendo também que se tivesse a oportunidade de voltar no tempo minutos antes de enviar "a carta", ele a enviaria novamente...

As coisas não funcionam como nós queremos, não adianta que nos enganemos fantasiando algo que sabemos que nunca irá acontecer, ou que nos entreguemos totalmente a um sentimento que sabemos que nunca será aflorado, não adianta vivermos uma mentira, mentindo para nós mesmo que somos felizes e que não nos importaremos por isso ou por aquilo..

A vida é como um castelo de areia, nós sabemos que um dia virá uma onda e destruirá tudo. Mas nem por isso devemos deixar de construir nossos castelos, só que nos cabe ter consciência do momento certo pra fazer isso.. não adianta tentar num momento em que as ondas insistirem em destruí-lo ou em um momento de chuva, temos que saber também qual é o local adequado para a "construção"...

Era isso e simplesmente isso que ele pensava naquele momento, e não adiantava procurar uma solução por que ele sabia que não existia, e até mesmo ela sabia disso...


Se quando amamos alguém de verdade, sempre encontramos uma solução, então por que não encontramos a bendita solução dessa vez? O amor é cego, e as pessoas normalmente acham isso uma coisa bonita, mas não é... Definitivamente não é. Talvez seja por achar isso que milhares de casais se casam e brigam todos os dias, definitivamente aquele garoto não queria ser qualquer um, e talvez tenha sido por isso que nada deu certo, pelo egoísmo dele e dela também em não entende-lo..

No final aparentemente ele levou a culpa, e ele sabe que literalmente a culpa é dele, mas pelo menos ele sofrerá a punição sozinho, ele carrega o problema, e como um egoísta de carteirinha que ele sempre foi, nunca irá aceitar dividi-lo com alguém...


"O verão veio e se foi

O inocente nunca sobrevive
Me acorde quando setembro acabar
"

{{Wake Me Up When September Ends - Green day}}

~> Escolhas

Se a vida é feita de escolhas, por que existem tantas pessoas infelizes no mundo?
Será que é assim tão difícil distinguir o que é bom do que não é?

Pessoas... Se existe algum ser tão complexo a ponto de nem o melhor dos filósofos entenderem, esse sem dúvidas é o ser humano, procurar e sonhar por algo a vida inteira e simplesmente abandonar o “barco” no primeiro probleminha que aparecer, isso é típico deles..

Sim, aquele garoto já estava cansado, o caminho traçado até ali por aquele enorme labirinto tinha sido bem longo, e ele ao menos sabia se era o caminho correto, entretanto, ainda faltava muito “chão” pela frente e ele sabia que agora que as coisas começariam a complicar. Em mais uma, das muitas encruzilhadas daquele labirinto, ele se deparou com dezenas de opções, dezenas de portas que o levariam a caminhos totalmente diferentes que sem sombra de dúvidas mudariam sua vida para sempre. E agora? Como decidir qual caminho seguir? Não, ele não tinha uma resposta plausível pra essa pergunta, e isso o irritava.

O relógio apontava 02h59min da tarde, ele tinha apenas um minuto para iniciar a sua longa jornada de exercícios, os resultados desse feitio durante uma semana haviam o deixado bem satisfeito, mas nem isso conseguia animá-lo. Ele estava lá, sedentariamente deitado em sua cama, dezenas de coisas pra fazer, sua cabeça a mil por hora e ele ali, deitado, tentando organizar seus pensamentos. Trabalhos de escola para serem feitos, projetos, grupos de estudo para ser organizados, livros para serem lidos, entre outras muitas tarefas, e ele sufocado apenas em organizar tudo aquilo para começar a fazer. Será que é esse o risco que se corre ao exigirmos de nós mesmos mais do que sabemos que podemos oferecer?

Quais são os tipos de pessoas que se dão bem na vida? As pessoas que têm oportunidade ou as que têm força de vontade? Pra ele, essa resposta não significava muita coisa, suas oportunidades haviam sido recusadas pelo seu orgulho, e sua força de vontade andava em baixa ultimamente. Ele literalmente estava sem os dois ingredientes fundamentais para se dar bem na vida, mas ele queria recuperá-los, ele precisava recuperá-los, e ele sabia que com um bom “chá de animo” tudo estaria resolvido, afinal, com força de vontade construímos nossas oportunidades.

“Quem será que pode me vender um pouco de prazer

Pra agüentar a vida, sem brincar com a morte?
Quem será que pode me vender um pouco de qualquer
Artifício mágico da
sorte?”

Mesmo assim ele ainda precisava se decidir pelo caminho a seguir. Era uma escolha difícil, todos os caminhos tinham seus lados bons e ruins, e por mais que ele tentasse encontrar um final para tudo isso ele não encontrava. Afinal a vida é assim, é deliciosa, mas pode ser extremamente fria e cruel, tudo depende de nossas escolhas, dos caminhos que resolvemos percorrer, a vida é feita de caminhos cercado por flores, só nos resta tomar cuidado com os espinhos!



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